"De todas as coisas seguras, a mais segura é a dúvida". (Bertolt Brecht)


sexta-feira, 23 de julho de 2021

Filósofo Roberto Romano morre aos 75 anos

Legenda da foto: Professor Roberto Romano, da Unicamp, se opõe aos cargos comissionados (Crédito da foto: Antoninho Perri/Unicamp).

Publicação compartilhada do site G1 GLOBO, de 22 de julho de 2021 

Covid-19: filósofo Roberto Romano morre aos 75 anos em hospital de São Paulo

Professor aposentado da Unicamp estava internado desde 11 de junho no InCor e teve óbito registrado na tarde desta quinta-feira (22), após falência de múltiplos órgãos.

O filósofo e professor titular aposentado da Unicamp Roberto Romano, de 75 anos, morreu na tarde desta quinta-feira (22) após complicações da Covid-19. Ele estava internado desde 11 de junho no Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (InCor), em São Paulo, que confirmou o óbito nesta noite.

"O professor evoluiu nas últimas semanas com quadro clínico grave, que culminou em falência de múltiplos órgãos", informa a assessoria. Romano foi docente do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da universidade estadual, em Campinas (SP).

O escritor nasceu em Jaguapitã (PR) e era casado com a socióloga Maria Sylvia de Carvalho Franco.

'Intelectual de primeira grandeza'

Em nota, o reitor da Unicamp, Antônio José de Almeida Meirelles, o Tom Zé, lamentou a perda e ressaltou que o docente era um defensor do ensino público, da ética, das políticas de inclusão nas universidades e da justiça social no país. Confira abaixo íntegra.

"Nossa universidade lamenta profundamente o falecimento do Prof. Roberto Romano. Após enfrentar complicações em decorrência da Covid-19, ele se soma às tantas vítimas da pandemia em nosso país, decorrentes da pouca atenção que parte de nossas autoridades deram a esta tragédia que acomete o mundo. Roberto Romano, um intelectual de primeira grandeza, sempre se caracterizou pela defesa do ensino público e das nossas instituições de fomento à ciência e tecnologia. Representou uma voz muito forte a favor da ética em nossas instituições e no desenvolvimento das relações humanas, uma ética baseada na busca da igualdade e da solidariedade. Posicionou-se com firmeza pelas políticas de inclusão em nossas universidades e pela justiça social em nosso país. Temos muito orgulho de tê-lo tido como membro de nossa comunidade universitária. Expressamos nossas condolências a seus familiares, amigos e colegas e nossa grande tristeza por esta perda", diz o texto do reitor.

Histórico

Roberto Romano era graduado pela USP (1973) e fez doutorado em filosofia pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris, na França (1978). Ele era considerado uma das referências no país ao tratar de temas como ética, democracia, direitos humanos, ciência política e universidade pública. Além disso, foi autor de vários livros como "Igreja contra o Estado", "Conservadorismo romântico: Origem do totalitarismo" e "Razão de Estado e outros estados da razão".

Texto e imagem reproduzidos do site: g1.globo.com

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

101 citações para aumentar sua produtividade agora mesmo


Publicado originalmente no site AWEBIC 

101 citações para aumentar sua produtividade agora mesmo – ANOTE

Redação Awebic

Às vezes, basta uma frase inspiradora para começar a fazer as coisas novamente!

Como Zig Ziglar disse:

“As pessoas costumam dizer que a motivação não dura. Bem, nem banho – é por isso que recomendamos diariamente.”

Aqui estão 101 frases para aumentar sua produtividade agora mesmo. Tomar banho é opcional. 😉

01. Ação é a chave fundamental para todo o sucesso. – Picasso

02. Ações provam quem alguém é. Palavras apenas provam quem eles querem ser. – Autor Desconhecido

03. Sempre carregue um caderno de anotações. Escreva tudo…essa é uma lição de um milhão de dólares que eles não ensinam na escola de negócios! – Aristóteles Onassis

04. Sempre entregue mais que o esperado. – Larry Page

05. Amadores sentam e esperam por inspiração, o resto de nós apenas se levanta e vai trabalhar. – Stephen King

06. E no final, não são os anos da sua vida que contam. É a vida em seus anos. – Abraham Lincoln

07. E chegou o dia em que o risco de permanecer apertado em um botão era mais doloroso do que o risco de florescer. – Anais Win

08. Estar ocupado é uma forma de preguiça – pensamento preguiçoso e ação indiscriminada. – Tim Ferriss

09. Ao falhar na preparação, você está se preparando para falhar. – Benjamin Franklin

FRASES - MOTIVACIONAIS

10. Concentre todos os seus pensamentos no trabalho em suas mãos. Os raios do sol não queimam até serem focalizados. – Alexander Graham Bell

11. A melhoria contínua é melhor que a perfeição retardada. – Mark Twain

12. Definitividade de propósito é o ponto de partida de toda conquista. – W. Clement Stone

13. Disciplina é escolher entre o que você quer agora e o que você mais deseja. – Abraham Lincoln

14. Faça algo em vez de matar o tempo. Porque o tempo está te matando. – Paulo Coelho

15. Faça os trabalhos difíceis primeiro. Os trabalhos fáceis cuidarão de si mesmos. – Dale Carnegie

16. Fazer o melhor neste momento coloca você no melhor lugar para o próximo momento. – Oprah Winfrey

17. Não espere descobrir que você está fazendo tudo certo – a verdade muitas vezes dói. O objetivo é encontrar suas ineficiências, para eliminá-las e encontrar seus pontos fortes para que você possa multiplicá-los. – Tim Ferriss

18. A dúvida mata mais sonhos do que o fracasso jamais conseguirá. – Suzy Kassem

19. Deitar cedo e acordar cedo torna o homem saudável, rico e sábio. – Benjamin Franklin

20. O desempenho efetivo é precedido pela preparação meticulosa. – Brian Tracy

21. Escreva algo que valha a pena ler ou faça algo que valha a pena ser escrito. – Benjamin Franklin

22. Tudo o que você quer está fora da sua zona de conforto. – Robert Allen

23. Apaixone-se pelo processo e os resultados virão. – Eric Thomas

24. Concentre-se em ser produtivo em vez de ocupado. – Tim Ferriss

25. Grandes atos são feitos de pequenos feitos. – Lao Tzu

26. Aconteça com as coisas, não deixe que as coisas aconteçam com você. – Stephen Covey

27. Tenha paciência. Todas as coisas da vida são difíceis antes de se tornarem fáceis. – Saadi

28. Aquele que não é corajoso o suficiente para assumir riscos, nada conseguirá na vida. – Muhammad Ali

29. Não temo o homem que praticou 10.000 chutes, mas temo o homem que praticou um chute 10.000 vezes. – Bruce Lee

30. Se você não prestar a devida atenção ao que lhe chama a atenção, precisará de mais atenção do que merece. – David Allen

31. Se você realmente quer fazer alguma coisa, você encontrará um caminho. Se não, você encontrará uma desculpa. – Jim Rohn

32. Se você gasta muito tempo pensando em alguma coisa, nunca vai conseguir. – Bruce Lee

33. Se você está atravessando o inferno, continue. – Winston Churchill

34. Não é suficiente ser diligente; assim são as formigas. Em que você está trabalhando? – Henry David Thoreau

35. É inútil fazer com mais o que pode ser feito com menos. – Guilherme de Ockham

36. Não é o que fazemos de vez em quando que molda nossas vidas, mas o que fazemos consistentemente. – Tony Robbins

37. Deixe hoje ser o dia em que você desiste de ser quem você foi para ser quem você pode se tornar. – Hal Elrod

38. Viva, ame, ria, deixe um legado. – Stephen Covey

39. O amor pela pressa não é uma indústria. – Sêneca

40. Sorte não é acaso, é labuta; o sorriso caro da fortuna é ganho. – Emily Dickinson

41. A maioria das pessoas excelentes alcançou seu maior sucesso apenas um passo além de seu maior fracasso. – Napoleon Hill

42. Motivação é o que faz com que você comece. Habito é o que te mantém seguindo. – Jim Rohn

43. Minhas coisas favoritas na vida não custam nada. Está claro que o recurso mais precioso que todos temos é o tempo. – Steve Jobs

44. Meu futuro começa quando eu acordo todas as manhãs. Todos os dias encontro algo criativo para fazer com a minha vida. – Miles Davis

Frases sobre produtividade para inspiração

45. Meu objetivo é construir uma vida da qual não preciso tirar férias. – Rob Hill, Sr.

46. Nunca desista de um sonho apenas por causa do tempo que levará para realizá-lo. O tempo passará de qualquer maneira. – Earl Nightingale

47. Nada é menos produtivo do que tornar mais eficiente o que não deveria ser feito. – Peter Drucker

48. Nada funcionará a menos que você faça. – Maya Angelou

49. Obstáculos são aquelas coisas assustadoras que você vê quando tira os olhos do seu objetivo. – Henry Ford

50. As pessoas comuns pensam apenas em gastar tempo, grandes pessoas pensam em usá-lo. – Arthur Schopenhauer

51. Paixão é energia. Sinta o poder que vem de se concentrar no que te empolga. – Oprah Winfrey

52. A perfeição não é quando não há mais o que adicionar, mas quando não há mais o que tirar. – Antoine De Saint-Exupery

53. Planos não são nada; o planejamento é tudo. – Dwight D. Eisenhower

54. A prática não é o que você faz quando é bom. É a coisa que você faz que te torna bom. – Malcolm Gladwell

55. Produtividade é ser capaz de fazer coisas que você nunca foi capaz de fazer antes. – Franz Kafka

56. Produtividade nunca é um acidente. É sempre o resultado de um compromisso com a excelência, planejamento inteligente e esforço concentrado. – Paul J. Meyer

57. Ler, depois de certa idade, desvia a mente demais de suas atividades criativas. Qualquer homem que lê muito e usa seu cérebro muito pouco cai em hábitos preguiçosos de pensar. – Albert Einstein

58. Artistas de verdade embarcam. – Steve Jobs

59. Se você se encontrar em um barco com vazamento crônico, a energia dedicada à troca de navios provavelmente será mais produtiva do que a energia dedicada a consertar vazamentos. – Warren Buffett

60. Alguém está sentado na sombra hoje porque alguém plantou uma árvore há muito tempo. – Warren Buffett

61. Às vezes, as coisas podem não dar certo, mas o esforço deve estar presente todas as noites. – Michael Jordan

62. Pare de usar seu osso da sorte onde sua espinha dorsal deveria estar. – Elizabeth Gilbert

63. O sucesso não é final, o fracasso não é fatal: é a coragem de continuar que conta. – Winston Churchill

64. Pessoas bem-sucedidas são simplesmente aquelas com hábitos de sucesso. – Brian Tracy

65. A melhor maneira de prever o futuro é criá-lo. – Alan Kay

66. O maior perigo para a maioria de nós não é que nosso objetivo seja alto demais e fiquemos aquém, mas que seja muito baixo e o alcancemos. – Michelangelo

67. A chave é não priorizar o que está na sua agenda, mas programar suas prioridades. – Stephen Covey

68. As pessoas menos produtivas são geralmente aquelas que são mais favoráveis ​​à realização de reuniões. – Thomas Sowell

69. O principal é manter a principal coisa principal. – Stephen Covey

70. O mestre falhou mais vezes do que o iniciante sequer tentou. – Stephen McCranie

71. A melhor saída é sempre atravessar. – Robert Frost

72. A sociedade baseada na produção é apenas produtiva, não criativa. – Albert Camus

73. O preço real de qualquer coisa que você faz é a quantidade de tempo que você troca por isso. – Henry David Thoreau

74. A maneira de começar é parar de falar e começar a fazer. – Walt Disney

75. Não há engarrafamentos ao longo do quilômetro extra. – Roger Staubach

76. Existem riscos e custos para a ação. Mas eles são muito menos do que os riscos a longo prazo da inação confortável. – John F. Kennedy

77. Pense em muitas coisas; faça uma. – Provérbio português

78. Tente não se tornar uma pessoa de sucesso, mas sim uma pessoa de valor. – Albert Einstein

79. Até que possamos gerenciar o tempo, não podemos gerenciar mais nada. – Peter Drucker

80. Nós somos o que repetidamente fazemos. Excelência, então, não é um ato, mas um hábito. – Aristóteles

81. O que é medido é gerenciado. – Peter Drucker

82. O que você faz hoje pode melhorar todos os seus amanhãs. – Ralph Marston

83. Quando algo é importante o suficiente, você faz mesmo que as probabilidades não estejam a seu favor. – Elon Musk

84. Quando não somos mais capazes de mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos. – Viktor Frankl

85. Quando você faz mais do que você é pago, eventualmente você será pago por mais do que você faz. – Zig Ziglar

86. Se você acha que pode ou se acha que não pode, você está certo! – Henry Ford

87. Enquanto uma pessoa hesita porque se sente inferior, a outra está ocupada cometendo erros e se tornando superior. – Henry C. Link

88. Por que fazer alguma coisa a menos que seja ótimo? – Peter Block

89. O trabalho lhe dá significado e propósito e a vida é vazia sem ele. – Stephen Hawking

90. Trabalhe como se houvesse alguém trabalhando vinte e quatro horas por dia para tirar tudo de você. – Mark Cuban

91. Ontem fui inteligente e tentei mudar o mundo. Hoje sou sábio e tento me mudar. – Rumi

92. Você pode ter resultados ou desculpas. Não ambos. – Arnold Schwarzenegger

93. Você não pode ter um sonho de um milhão de dólares com uma ética digna de um salário mínimo. – Stephen Hogan

94. Você não precisa ver a escada inteira, apenas dê o primeiro passo. – Martin Luther King, Jr.

95. Você não precisa de mais tempo no seu dia. Você precisa decidir. – Seth Godin

96. Você pode atrasar, mas o tempo não. – Benjamin Franklin

97. Você deve modificar seus sonhos ou ampliar suas habilidades. – Jim Rohn

98. É preciso fazer menos coisas para obter mais efeito, em vez de fazer mais coisas com efeitos colaterais – Gary Keller

99. Você nasceu para vencer, mas para ser um vencedor, você deve planejar para vencer, se preparar para vencer e esperar vencer. – Zig Ziglar

100. Sua mente é para ter ideias, não para segurá-las. – David Allen

101. Seu patrimônio líquido para o mundo é geralmente determinado pelo que resta depois que seus maus hábitos são subtraídos de seus bons. – Benjamin Franklin
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Este artigo é uma tradução do Awebic do texto originalmente publicado em Productive and Free.

Texto e imagem reproduzidos do site: awebic.com

segunda-feira, 4 de maio de 2020

5 pontos para entender o pensamento de Maquiavel

Retrato de Nicolau Maquiavel 
Foto: Wikimedia Commons

Publicado originalmente no site da revista GALILEU, em 3 de maio de 2020 

5 pontos para entender o pensamento de Maquiavel

O filósofo italiano Nicolau Maquiavel revolucionou o pensamento da ciência política ao buscar entendê-la como realmente é

Por Marília Marasciulo

Nascido em Florença no dia 3 de maio de 1469, o filósofo Nicolau Maquiavel ficou conhecido principalmente por descrever as dinâmicas do poder. Em vez de formular teorias sobre como o estado ou o governante ideal deveria ser, dedicou-se a dissecar a realidade. Ao fazê-lo, há quem diga que criou um manual com estratégias e métodos sobre como os governantes deveriam se comportar para manter e expandir o poder. Mas há também quem considere que ele, na realidade, alertou o povo sobre os perigos da tirania.

Atualmente, o mais aceito é que as reflexões de Maquiavel formaram as bases do pensamento realista da ciência política moderna, e a imoralidade atribuída a elas na verdade provém de uma interpretação descontextualizada. Mesmo assim, o termo “maquiavélico” se tornou um adjetivo usado para qualificar pessoas sem escrúpulos, traiçoeiras e sem respeito pelas leis morais.

Entenda melhor o pensamento de Maquiavel em 5 pontos:

1. Os fins justificam os meios

À primeira vista, a frase erroneamente atribuída a Maquiavel (ela não aparece em O Príncipe e em nenhum outro texto do filósofo) é a que melhor parece resumir seus pensamentos. Afinal, em sua obra mais conhecida o filósofo dissecou a política sem escrúpulos, mostrando que o que a move é a luta pela conquista e manutenção do poder. Não importa se para isso for necessário romper com valores morais impostos pela Igreja e pela sociedade, que não deveriam restringir a ação do rei ou do governante.

O que ele defendida, na realidade, é que na política a ética é utilitária e a moralidade deveria ser medida com base em atos que sejam úteis à coletividade, mesmo que com isso acabe ferindo valores individuais.

2. Virtude é mais importante que sorte

Um dos pontos mais centrais do pensamento de Maquiavel é a dicotomia entre virtude e sorte, ou “fortuna”. Um príncipe, ou governante, virtuoso é aquele que não necessariamente é pérfido, mas sabe conquistar seus favores para manter o poder e expandir o domínio sem depender do acaso. Na visão o filósofo, ser virtuoso é saber o momento certo de agir e de não fazer nada, sem deixar margem para a fortuna. Algumas interpretações enxergaram isso como ser diabólico ou ardiloso.

3. Crueldade bem usada

Sobrepor a virtude à sorte pode significar também ter sabedoria para ser mau quando necessário: Maquiavel defendia que, para salvar o Estado, um governante deveria saber “não ser bom”, mentindo ou parecendo piedoso se a situação exigisse, de modo a manter a segurança e o bem-estar de seu povo. A crueldade, nesses casos, seria justificável e bem usada.

4. É preferível ser temido que amado

O amor é um sentimento inconstante, visto que as pessoas são naturalmente egoístas e podem alterar sua lealdade quando bem entenderem — ou, nas palavras do próprio Maquiavel, o amor é mantido por vínculos de gratidão que se rompem quando deixam de ser necessários. Já o temor em ser castigado não pode ser ignorado com tanta facilidade e, portanto, não falha.

5. Razão de Estado

Todas as observações de Maquiavel tinham, no fundo, a intenção de mostrar que o objetivo da política era manter a estabilidade social e do governo a todo custo. Cabe lembrar que o contexto em que vivia era de guerras e disputas, em uma Itália fragmentada e com o poder muito ditado pela Igreja.

Texto e imagem reproduzidos do site: revistagalileu.globo.com

domingo, 29 de dezembro de 2019

Perfil do Leitor: Luiz Felipe Pondé


Perfil do Leitor: Luiz Felipe Pondé
Biblioteca pessimista
Pondé

Interessado pelo “sentimento de precariedade da vida” desde muito cedo, o filósofo, escritor e colunista da Folha de S. Paulo revela os caminhos literários que ajudaram a formular a sua linha de pensamento dita politicamente incorreta

Por Omar Godoy

Com ele não há meio termo, é na base do “ame ou odeie”. Autor de uma das colunas mais discutidas da imprensa brasileira (publicada às segundas-feiras no jornal Folha de S. Paulo), o escritor, professor e filósofo Luiz Felipe Pondé parece se divertir cutucando esquerdistas, feministas, ecologistas, ateus e qualquer um engajado nas causas politicamente corretas da moda. Tudo com um humor sarcástico, o que irrita ainda mais seus detratores.

Autor de vários livros, entre eles o best-seller instantâneo Guia politicamente incorreto da filosofia (2012), Pondé também é um leitor assíduo, como exige sua condição de profissional do pensamento. Um hábito que começou na infância, por influência do pai. “Cresci num ambiente completamente livre, com muitos livros. Meu pai lia vorazmente e dizia que as pessoas inteligentes se cumprimentam falando sobre os livros que estão lendo”, conta.

Os primeiros títulos, presenteados pelo pai, nada tinham de infantis. Muito pelo contrário. Aos 12 anos, ganhou uma Bíblia e a leu inteira, fascinando-se pelo personagem de Deus. Em seguida, vieram Noites brancas (Fiódor Dostoiévski) e A idade da razão (Jean-Paul Sartre). Do primeiro, gostou principalmente do desfecho — “Porque a mulher fica com o cara que a maltratava” —; do segundo, extraiu um elemento que se tornou uma de suas marcas pessoais: o pessimismo.

Começou a ler em outras línguas aos 15 anos, mas não se gaba disso. “Não gosto de afetação, de quem diz que só consegue ler no idioma original. Se você pode ler em outra língua, ótimo. Porém, você pode ler no original e ser um idiota que joga com isso. Num doutorado, deve-se ler no original. Na vida, deve-se ler, e sempre”, diz.

PondéAinda adolescente, mas já interessado pela condição humana, leu Albert Camus e teve um “grande encontro” com Sigmund Freud. A psicanálise, aliás, foi a área em que mergulhou depois de largar a faculdade de Medicina (Pondé vem de uma família de médicos, e seu filho mais velho também acabou enveredando pela profissão). Entre idas e vindas, que incluíram até uma temporada num kibutz de Israel (facilitada por sua origem judia), ele finalmente sossegou no curso de Filosofia. “Sempre fui tomado pelo sentimento de precariedade da vida. Decidi estudar os grandes filósofos para entender isso e dar nomes a esse sentimento”, explica.

Apesar de ter militado durante algum tempo no movimento estudantil, Pondé garante que não teve uma fase marxista, ao contrário de muitos de seus colegas de geração (inclusive os arrependidos que mudaram radicalmente de lado). “Claro que li Marx na faculdade de Filosofia. E reli Sartre. No entanto, o Sartre que me interessou sempre foi o existencialista, não o marxista. Também lembro de ter gostado de O que é isso companheiro?, do [Fernando] Gabeira, mas só como depoimento histórico”, afirma.

De qualquer forma, ele reconhece que alguns autores foram fundamentais em seu afastamento filosófico do pensamento esquerdista: Freud, Friedrich Nietzche e os conservadores britânicos Edmund Burke, David Hume e Michael Oakeshott, além de Santo Agostinho. “Acho o conceito de pecado melhor que o de luta de classes”, diz, sobre Agostinho. Sua lista de filósofos preferidos ainda inclui Pascal (“E sua visão do homem como um ser angustiado”) e Cioran (“Por seu pessimismo elegante”).

Questionado se existe uma corrente politicamente incorreta na literatura contemporânea, Pondé cita e elogia o inglês Theodore Darlrymple — psiquiatra, escritor e crítico da esquerda na cultura e na psicologia social — e o americano Philip Roth. “Acho que o politicamente incorreto só faz sentido como reação à mentira opressiva do politicamente correto, não como proposta de vida.”

Mas sua grande obsessão literária é o brasileiro Nelson Rodrigues, frequentemente mencionado em seus textos semanais. Não à toa, o próximo livro de Pondé, A filosofia da adúltera, vai justamente tratar do pensamento rodrigueano. “Tudo na obra dele me influenciou. Sua crítica ao moderno 'inteligentinho' e à esquerda festiva, sua leitura aguda do desejo humano, sua infinita superioridade aos seus críticos, sua visão da natureza humana nua, sua empatia verdadeira com o sofrimento humano e seu 'não' às modas do amor abstrato há humanidade”, diz.

Texto e imagem reproduzidos do site: candido.bpp.pr.gov.br

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Oscar Niemeyer - entrevista inédita

 Foto: Nelson Perez/Valor

 Foto: Nelson Perez/Valor.

Foto: Acervo Agência Estado/AE.

 Foto: Nelson Perez/Valor.

Entrevista publicada originalmente no Jornal do Brasil, 06 de dezembro de 2012. 

Oscar Niemeyer - entrevista inédita: projetos, política, amigos e vida.

Por Marcelo Auler.

"Eu acho a vida uma merda, apesar de seus encantos. Já nascemos condenados”. O desabafo foi feito por Oscar Niemeyer, em maio de 2011. Ao questionar  ao que estávamos condenados ao nascer, fiquei surpreso com a resposta: “a desaparecer”, desabafou o arquiteto que àquela altura já acumulava 103 anos muito bem vividos e ainda reclamava como se a morte lhe estivesse próxima. No seu caso, a “sentença” demorou 19 meses para ser cumprida. Ao morrer na noite de quarta-feira, Niemeyer já contabilizava 104 anos e 355 dias ou, mais precisamente 37.986 dias, contando com os dias 29 de fevereiro dos anos bissextos. Pode não ter sido um recorde mas, sem dúvida, foi uma experiência fantástica.

Apesar disto, nesta entrevista que foi gravada pelas câmaras da TV Brasil e jamais divulgadas, na qual a proposta inicial era falarmos de Darcy Ribeiro, Niemeyer declarou que com mais de cem anos, uma obra admirada mundialmente, inúmeros prêmios recebidos, ele achava que lhe faltaram momentos importantes na vida. Na conversa, ele falou um pouco sobre tudo. Da amizade e do respeito que tinha por Darcy, à sua admiração Leonel Brizola mas, apesar da voz baixa, se empolgava ao falar de Luiz Inácio Lula da Silva Lula e, embora não tenha querido compará-los, não titubeou em mostrar a diferença entre ele e Juscelino Kubitschek de Oliveira, seu grande amigo.

Como não poderia deixar de ser, reafirmou sua posição de comunista, que manteve até seus últimos dias, e lembrou as perseguições no período da ditadura: “Me lembro que fui chamado na polícia umas duas ou três vezes. Na última, eu vinha da Europa”. Em seguida, resumiu:  “Não sofri, como outros amigos que foram presos, apanharam, conheceram a tortura. Nada disto ocorreu comigo. Eles tinham prazer em me levar para a polícia e fazer inquérito.

Ao falar de suas obras, lembrou da Igreja de São Francisco de Assis, na Pampulha, em Belo Horizonte (MG), como aquela que mais se aproximou do projeto original. Ainda defendeu os Cieps, como “algo que ia revolucionar o ensino” e o Sambódromo, lamentando apenas que tenham acabado com as salas de aula que funcionavam nos camarotes, durante o ano letivo. No fim, resumiu: ”Sambódromo é a festa, feito carnaval, a festa do povo”.

Na conversa um comentário de Niemeyer  pode ser entendido como uma receita de um homem que se dizia comunista e ateu, para o sucesso de sua passagem entre nós :“ a vida é mulher do lado e o resto seja o que Deus quiser”.

Nesses cem anos que o senhor já viveu, qual o momento mais importante? O que mais o marcou?
Ah, não tive momento importante.  Se existiram, certamente não foi na Arquitetura. Foi alguma coisa que na vida me emocionou.

O que mais lhe emocionou na vida?
Sei lá. A vida é tão difícil. O mundo não é alegre não, o mundo é uma merda. A gente tem que lutar por viver, já nasce condenado. Eu não sou... não acho que a vida seja tão fundamental.

Mas a sua vida foi sempre muito fantástica.
É o que vivi, o que pude fazer, tentei fazer.

O senhor continua fazendo, aos 100 e poucos anos....
Eu gosto de trabalhar, estou um pouco absorvido pela Arquitetura, mas gosto de ficar parado também, ficar pensando nas coisas. Lembrar que o mundo podia ser melhor, os homens podiam ser mais generosos. Um olhar o outro com mais fraternidade. Mas isto tudo o partido (comunista) oferece, e com uma ideia justa. Um dia vai ser realizado.

O senhor é um arquiteto reconhecido mundialmente. Qual das suas obras mundiais lhe trouxeram mais orgulho?
A melhor obra que fiz na Europa é a que foi inaugurada agora, na Espanha. É uma praça enorme, com um grande auditório e um museu (N.R. Trata-se do Centro Cultural Internacional Oscar Niemeyer, na cidade de Avilés). Então, contou muito lá na vida dos espanhóis. Tem sido muito visitada, é uma obra muito bem construída Talvez eu pudesse dizer que foi o melhor que já fiz.

Mas os franceses também lhe respeitam muito.
Não tem nada que respeitam, mas eles gostam do meu trabalho.

Lá na França, o que o senhor acha que mais chamou a atenção?
 Se eu tivesse que sair do Brasil iria para a França. É um país fabuloso, o povo é amável, inteligente, progressista.  Me sinto bem na França, tive o apoio do Partido Comunista de lá, fiz a sede do partido e tive a sorte de encontrar o Andre Malraux, ministro da Cultura de De Gaulle. Fui para a França de navio, quando arrebentou o golpe militar no Brasil de 1964. Então eles invadiram meu apartamento e meu escritório. Quando o Malraux soube o que estava acontecendo, durante minha viagem à França, ele logo conseguiu um decreto do De Gaulle, que me autorizava ficar no país o quanto eu quisesse como arquiteto francês.

Foi o de Gaulle quem lhe deu este decreto....
Dele mesmo, ele propôs ao Malraux. De modo que eu tive mais contato com o ministro, um sujeito inteligente, encantador. Ele me ajudou muito, participava das exposições que eu fizesse. Foi uma figura importante para mim.

De todos os seus projetos, qual o que o senhor considera que teve o resultado mais próximo do que pensou quando projetou?
Talvez um projeto pequenino, da Igreja da Pampulha, do Juscelino. Ele queria fazer uma Igreja, chamou um arquiteto e não gostou, então me convidou. Aí que eu conheci o Juscelino e a Igreja da Pampulha teve um sucesso que mudava completamente a concepção de uma Igreja: era um prédio moderno, chamei pintores e escultores para trabalharem comigo no projeto. Foi uma obra feita no sentido de englobar arquitetura, pintura e escultura. Me deu um pouco mais de prosperidade de prosseguir no trabalho.

O senhor conheceu Lula na época em que ele era o líder operário. Qual sua opinião sobre o ex-presidente?
Ele é amigo do povo, eu o conheci muito tempo atrás. Era a mesma figura, cheia de entusiasmo, querendo fazer as coisas. Uma figura fantástica. Acho que para o Brasil, é o Lula que nos permite hoje sorrir um pouco. Hoje a vida é tão difícil, né?

Entre o Juscelino e o Lula quem o senhor acha que fez mais pelo país?
Não quero comparar.

O senhor foi amigo de ambos, não?
É lógico. Juscelino também era cheio de entusiasmo. Mas a vantagem do Lula tem é que ele veio do nada, era operário. Ele cresceu na luta política, lutando pela vida, até se transformar em um líder político da maior importância, aceito no mundo inteiro. Todo mundo respeita o Lula.

E o senhor acha que a Dilma vai pelo mesmo caminho?
 Acho que ela deve ir, né?

Mas é difícil ela seguir a trilha do Lula, não?
Pois é, mas Dilma tem contato bom com Lula. Eu acho que ela vai caminhar bem.

O senhor está gostando do que ela está fazendo?
Estou, por enquanto não tenho nada a reclamar.

Quando Darcy Ribeiro acompanhou Brizola na campanha para a presidência, em 1989, ele foi ao Rio Grande do Sul e todos falavam do marido da Dilma, Carlos Augusto, líder do PDT. Mas Darcy teria dito ‘vocês não sabem nada, ele é bom, mas a mulher dele é melhor ainda’.
Que falta de respeito...(risos)

Não, disse que a mulher era muito mais inteligente...
Ah, sim.

E se referia à Dilma. Darcy nunca comentou nada com o senhor a respeito da Dilma?
Não. Darcy era tão inteligente, tinha uma formação tão humana, que inspirava toda a confiança.Tinha aquele entusiasmo pelo índio, escrevendo, indo para lá no meio deles, dando uma importância enorme, procurando defender. O Darcy foi uma grande figura. Tivemos muito contato, ele era meu amigo. Fiz até uma casa para ele em Maricá. Quer dizer, foi ele quem fez a casa. Quando fui desenhar, já estava desenhada. Em todo caso, ele usou a casa em um período em que estava muito feliz, muito contente com a vida, cheio de sonhos. Seu livro, Brasileiros, foi muito bem feito, correto, na análise das coisas. Um brasileiro ilustre, brasileiro da maior importância foi o Darcy.

O senhor chegou a dirigir a Faculdade de Arquitetura?
Acho que foi na época em que fui retirado de lá pelos militares e quem assumiu meu lugar foi o Sérgio Bernardes (N.R. Niemeyer fez uma pequena confusão, quem o substituiu foi Ítalo Campofiorito). 

O Campofiorito conta que a polícia chegou lá na UnB procurando o senhor. O senhor não estava, perguntaram quem o substituía e aí o levaram preso.
(rindo) Nem sabia disto.

Não?
A pressão da direita era permanente, mas não me lembro destes detalhes não. Me lembro que fui chamado na polícia umas duas ou três vezes. Na última, eu vinha da Europa, tinha ficado lá por dois anos e quando voltei pensei que tinham me esquecido. Mas não. Ainda me prenderam e me levara para a Polícia Central,

Para o Dops?
É, mas não posso me queixar, porque só me incomodaram. Não sofri, como outros amigos que foram presos, apanharam, conheceram a tortura. Nada disto ocorreu comigo. Eles tinham prazer em me levar para a polícia e fazer inquérito.

O senhor trabalhou com o Darcy Ribeiro no projeto dos Cieps, do Museu da América Latina e da Universidade Norte Fluminense. Qual destes foi o mais importante para o senhor?
O mais importante para nós era o projeto dos Cieps. Era algo que ia revolucionar o ensino. O Darcy lutou, o Brizola lutou, todo mundo lutou para fazer funcionar. Mas ele nunca foi desenvolvido como poderia ter sido. Era uma maneira simples de conduzir a juventude para o conhecimento.

O senhor acha que não houve continuidade meramente por questões políticas?
Não houve tempo de se consolidar e o governo compreender que era um projeto indispensável. De modo que acabou de repente. Mais importante do que o prédio era ideia. Mas não sei como está funcionando no momento do ponto de vista do ensino.

E a UNB não foi um passo importante no ensino universitário brasileiro?
No começo foi. Eu fiz o projeto, era um projeto parecido com o espírito de arquitetura do que eu fiz em Paris. De modo que era uma coisa que ia funcionar muito bem. Mas não foi bem conduzido.

E depois, quando o Cristovam Buarque assumiu, não voltou ao eixo do que era para ser?
Não. Eu acho que a universidade foi mal construída. Mas está servindo, está atualizando o ensino.

Como foi seu projeto da Universidade da Argélia?
Foi tudo feito com muito coração, muita vontade de fazer bem feito, de ser útil. De modo que a coisa corria bem, com uns tropeços inevitáveis de vez em quando, uma coisa que ocorre, mas quando a direção é firme, a obra se faz bem. Agora eu fiz um projeto na Espanha que é um sucesso, são dois grandes prédios: um teatro e um museu e uma praça fantástica. De modo que quando a coisa tem bom acolhimento e boa orientação, o trabalho satisfaz e a gente fica satisfeito. Senão ficamos lembrando só do que estava no papel.

O Sambódromo surgiu na cabeça de quem primeiro, do senhor ou do Darcy?
Na minha não foi, deve ter sido na dele. Eu fiz o desenho. A gente conversava, ele explicava o que queria. Fiz o estudo, ele modificou o que quis. E a obra está feita, e é útil realmente. Sambódromo é a festa, feito carnaval, a festa do povo.

A ideia das salas de aula nos camarotes no resto do ano começou no início do projeto, ou surgiu no meio do caminho?
Foi ideia do Darcy. Me lembro que quando o prefeito da França esteve aqui, fomos mostrar o Sambódromo para ele. Quando eu disse que embaixo ficavam as salas de aula ele ficou espantado. “Que ideia formidável, aproveitar esta correia imensa para levar cultura ao país”, ele comentou.

Mas depois parou, também.
Não, agora vai continuar. Com certeza o Lula vai manter as escolas no subsolo. Pelo menos é um gesto corajoso de entusiasmo. Ninguém pensou em fazer o estádio com as aulas embaixo, só mesmo o Darcy poderia ter uma ideia dessas. Nesta nossa pequena conversa, você me deu uma ideia importante. O negócio das salas de aula devia ser mantido embaixo dos estádios.

Quem influenciava mais quem, o Darcy influenciava mais o Brizola ou o Brizola influenciava mais o Darcy?
Acho que o Darcy era mais o intelectual. E Brizola era um homem corajoso, correto e tinha vontade de fazer as coisas. Teria feito muito mais se não tivesse tido tanto problema. Tenho a maior admiração pelo Brizola, era um brasileiro ilustre, corajoso, sabia fazer apolítica.

Uma vez o Pasquim lhe perguntou como era sua relação com as mulheres...
Eu disse, a vida é mulher do lado e o resto seja o que Deus quiser. Eles acharam muita graça e é verdade. Você tem que ter mulher do lado, não é? A vida é difícil, o sujeito luta para fazer a vida ficar melhor e mais generosa. Mas você despede dos amigos. Eu acho a vida uma merda, apesar de seus encantos. Já nascemos condenados.

Condenados ao quê?
A desaparecer.

Texto e imagens reproduzidos do site: elfikurten.com.br

terça-feira, 17 de março de 2015

Roda Viva - Florestan Fernandes

Florestan Fernandes: O Mestre

Florestan Fernandes:  O Mestre.
  Documentário de Roberto Stefanelli.

Publicado em 16 de abr de 2013.

Playlist: História, Brasilidade e Filosofia.

A vida e a obra de Florestan Fernandes (São Paulo, 22 de julho de 1920 — São Paulo, 10 de agosto de 1995) - engraxate, garçom, professor, deputado e constituinte -, são retratadas no documentário "Florestan Fernandes -- O Mestre", dirigido por Roberto Stefanelli, galardoado em 2004 com o prêmio 'Vladimir Herzog', a mais importante premiação jornalística da área de direitos humanos do Brasil.

"Para o professor Antônio Cândido ele foi o único grande homem de sua geração; o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fala do amigo com a reverência de um filho para um pai, inclusive nas discordâncias; os ministros José Dirceu e Luiz Gushiken lembram do político como dois discípulos de sua conduta, acrescida de uma dose de pragmatismo; o ex-ministro Jarbas Passarinho sustenta que discordavam ideologicamente, mas os unia a afinidade intelectual; a professora Mirian Limoeiro sustenta que ele fez da sociologia uma ciência; o deputado Ivan Valente fala do marxista aberto a todas as discussões; seu filho, Florestan Fernandes Júnior, lembra do eterno otimista. Todos estão juntos no documentário.

Durante 50 minutos são percorridos os caminhos mais duros da sua infância do Brás, por onde andou carregando sua caixa de engraxate em direção ao centro histórico e às portas dos grandes cinemas, ou subindo o morro dos Ingleses, para entregar ternos nas mansões da burguesia paulista. Trabalhava como garçom quando, aos 17 anos, resolveu cursar o que na época era chamado madureza, hoje supletivo, para despontar depois na primeira geração de professores brasileiros da Universidade de São Paulo (USP) e ser considerado o maior sociólogo brasileiro, uma referência internacional na sociologia.

Eleito duas vezes pelo PT, era um ícone na Câmara dos Deputados, sempre tratado de professor. Foi aluno de Roger Bastide e Claude Lévi-Strauss, professor de Fernando Henrique Cardoso e Otávio Ianni, colega de Antônio Cândido e Hermíno Sachetta, com que trilhou o trotskismo.

Suas primeiras grandes obras, das mais de 50 que publicou, foram sobre a sociedade dos índios Tupinambá, tribos da faixa litorânea praticamente extintos desde o século XVII. Elas se tornaram uma referência para a sociologia em geral e para sua vida em particular. Sobre sua formação escreveu: "...descobri que o 'grande homem' não é o que se impõe aos outros de cima para baixo, ou através da história; é o homem que estende a mão aos semelhantes e engole a própria amargura para compartilhar a sua condição humana com os outros, dando-se a si próprio, como fariam os meus tupinambá".

Florestan Fernandes morreu aos 75 anos, em 10 de agosto de 1995, vítima de dois erros médicos no Brasil".

Documentário disponibilizado pela TV Câmara e aqui reproduzido de acordo com os termos de uso da referida emissora.